










No Ponto do Mirante, dá para ver, de um lado, a plenitude da grande planície amazônica, numa paisagem que lembra um imenso tapete esculpido nos mais diversos tons do verde. Do outro lado, a vista é de grandes serras, também verdejantes, cada vez mais altas ao fundo, formando as primeiras ondulações da Cordilheira dos Andes, a maior cadeia de montanhas do mundo.
Tudo isso é o que se pode desfrutar no local mais alto da Serra do Môa, sede do Parque Nacional da Serra do Divisor, situado no extremo-oeste do Acre, no ponto mais ocidental do país. Ali, rios, igarapés e as muitas espécies de pássaros, insetos, animais e árvores dão, com razão, a essa região, na fronteira com o Amazonas e o Peru, o título de detentora da maior biodiversidade do planeta.
Dez dias de barco
Para se chegar ao Ponto do Mirante, na Serra do Divisor, o visitante tem a certeza de que viver, antes, uma longa história, recheada de novidades e aventuras em meio a muito verde, água, vento, chuva, céu, barrancos, pássaros, animais, muitas estrelas durante a noite e um sol muito ardente durante o dia.
Foi essa aventura inesquecível que eu, o repórter fotógrafo Sérgio Vale, e uma equipe da TV Nacional (Radiobras) vivemos, em uma viagem de 10 dias de barco ao coração do Parque Nacional da Serra do Divisor e em duas áreas indígenas do Acre.
Ali, pudemos conhecer o povo da floresta e a riqueza ambiental da selva acreana, que faz dessa região, em plena Amazônia Ocidental, a verdadeira terra da biodiversidade, reconhecida e admirada no mundo inteiro pela numerosa e extraordinária diversidade de suas fauna e flora amazônicas.
Série premiada
A viagem resultou numa série de reportagem publicada inicialmente no jornal Página 20 (Rio Branco-AC), que venceu o Prêmio José Chalub Leite de Jornalismo, um dos mais significativos da região Norte.
A série retrata as belezas existentes tanto no Parque do Divisor quanto nos rios, nas matas e nas aldeias dos índios Ashaninka, do Rio Amônia, e dos Kaxinawá, do rio Jordão, todas situadas no Vale do rio Juruá, um dos afluentes da margem direita do grande Rio Amazonas.
Terra da farinha
Nossa aventura para o Parque Nacional da Serra do Divisor, ou simplesmente Serra do Môa, como preferem chamar os nativos, começou em Rio Branco no dia 10 de maio, quando voamos pela empresa aérea Rico para Cruzeiro do Sul, a segunda maior cidade acreana, situada no outro extremo do estado, a 520 quilômetros da capital.
Cruzeiro do Sul é conhecida como capital do Vale do Rio Juruá. É chamada pelos acreanos de "terra da farinha", cuja qualidade e sabor ganham adeptos em várias partes do país.
Seguindo um roteiro previamente traçado para viagem de selva, a primeira preocupação da equipe em Cruzeiro foi providenciar o rancho de alimentos e de produtos de primeira necessidade que pudessem garantir o mínimo de sobrevivência numa região até então desconhecida de todos. A expectativa e a ansiedade nos dominavam e não víamos a hora de, no dia seguinte, chegar a Mâncio Lima, cidade próxima a Cruzeiro, de onde pegaríamos os barcos para navegar pelo Rio Môa em direção a Serra do Divisor.
Mâncio Lima
Chegamos logo cedo ao pequeno porto de Mâncio Lima, onde os barqueiros José Coelho e Francisco Silva já estavam a postos para comandar nossa viagem em duas pequenas canoas equipadas com motores Honda de 11 e 13 HP.
Adrenalina em alta, motores ligados e bagagens e rancho devidamente repartidos e acomodados nos duas pequenas canoas, cujas bordas ficavam (perigosamente) poucos centímetros do nível da água, partimos então para a primeira etapa de nossa reportagem. Eram exatamente 7h30 da manhã do dia 11, quando alcançamos o Igarapé Mâncio Lima, um atalho que se pega para se chegar mais rápido ao Môa, o rio por onde se vai ao Parque Nacional Serra do Divisor.
Curvas que desafiam
Com 843.012 hectares de floresta, o parque abrange grande parte do Vale do Rio Juruá, sendo formado por porções territoriais dos municípios de Cruzeiro do Sul, Mâncio Lima, Porto Walter, Rodrigues Alves e Marechal Thaumaturgo.
Por Cruzeiro, a viagem até a Serra do Divisor torna-se no mínimo duas horas mais longa, porque as embarcações precisam navegar antes pelo Rio Juruá para adentrarem depois no Môa.
No Igarapé Mâncio Lima, o primeiro desafio da equipe foi se acostumar com o elevado ruído provocado pelo eco que o barulho do motor da canoa provoca ao passar rente à selva. O outro desafio foi o de ficar atento às infindáveis curvas que a canoa faz ao longo da viagem pelo igarapé, quando muitas vezes passa raspando e até se chocando contra arbustos à beira d’água, obrigando todos a um constante exercício de contorcionismo para evitar ferimentos ou machucados.
Fora isso, tudo passa a ser diferente e muito atraente quando as canoas entram no Igarapé Mâncio Lima, onde a maestria do barqueiro cruzeirense José Coelho, 48 anos, 15 dos quais navegando pelos rios da selva do Vale do Juruá, consegue fazer curvas e manobras, numa velocidade de até 30 Km/h, dignas de um piloto de Fórmula Um das águas.
Poucos minutos depois de adentrarmos o igarapé, pudemos ver os primeiros pássaros da região, alimentando-se de flores e frutas silvestres, pulando de um galho a outro de árvores como palmeiras de buriti e de coari, muito comuns na área. Muito estreito no início da viagem, onde mede no máximo de cinco ou seis metros, o igarapé Mâncio Lima aos poucos vai se alargando, chegando a ter até 50 metros à medida que se aproxima do rio Môa.
Môa, rio da biodiversidade
Uma hora e 50 minutos de viagem, alcançamos finalmente o Môa, o rio que, de cara, encanta a todos por suas águas mais escuras, que cortam a floresta em média correnteza e que sempre fizeram parte da vida dos índios, seringueiros e pequenos agricultores que nasceram e cresceram nesta região da selva acreana. A essa altura, o sol já se fazia notar por sua forte intensidade, obrigando todos a recorrer a chapéus e a se proteger de qualquer forma contra seus raios implacáveis, que na Amazônia parece começar a brilhar e a queimar muito mais cedo do que em qualquer outra parte do planeta.
Eram mais de 10 horas quando começamos a avistar as primeiras casas e pessoas ao longo dos barrancos do Môa, que àquela altura já media, em terminados locais, mais de 200 metros de largura, embora a época fosse de vazante, tais eram as marcas de mais de dois metros de altura que se podia ver nas folhas das árvores outrora cobertas pela água.
Espécies raras
A paisagem à beira do rio é predominante de árvores grandes, num emaranhado de selva constituída pela chamada floresta tropical aberta de cipó, onde predominam o juá, a castanha-de-piriquito, o taperebá e o inharé, entre outras.
Em outros locais, a floresta passa a se chamar aberta de palmeiras, onde predominam a paxiúba-lisa, o patauá, o açaí, o jaci, o murmuru, a paxiúba-barriguda, o inajá e a jarina, árvores muito usadas pelos moradores do local para construir casas, fabricar óleo caseiro ou fazer belos artesanatos, que encantam pelo exotismo das sementes da flora amazônica. A região do Rio Môa também detém a maior diversidade de palmeiras do Brasil.
Ao contrário do Igarapé Mâncio Lima, o Môa, em qualquer estação do ano, é navegável em quase toda a sua extensão, apesar de, em determinados lugares, exigir cuidados de navegabilidade no verão por causa de alguns balseiros que encalham em determinados pontos do rio ou descem as águas dificultando um pouco mais o trajeto dos barcos.
Pesca do piau
Durante a nossa viagem, a navegalidade ainda era plena, com barcos se cruzando conduzindo pessoas doentes para Mâncio Lima e Cruzeiro ou transportando animais — bois, bodes, porcos e galinhas — de um local para outro da região, ou mercadorias que alguns regatões comercializam ao longo do rio.
À medida que nossas canoas iam subindo o Môa era possível ver um número crescente de pessoas, geralmente homens ou meninos, pescando às margens do rio, onde três quilos de piau, peixe muito comum na região, assim como o tucunaré e o tambaqui, pode ser comprado até por R$ 5, como fez o barqueiro José Coelho em nossa volta da Serra do Divisor.
De caniço, rede ou espinhel, os peixes são pescados de dia ou de noite no meio ou nas margens do rio, constituindo-se num dos principais alimentos dos moradores da floresta, que completam suas dietas com a caça de animais silvestres, quase sempre acompanhados da boa farinha cruzeirense, da mandioca cozida, do arroz e do feijão, cultivados em pequenos roçados plantados próximo aos barrancos do rio.
Samaúmas
A viagem prossegue pelo rio acima, onde é possível, vez em quando, deparar-se com árvores gigantescas, como a samaúma, que de tão frondosa e majestosa se constitui num dos mais belos cartões postais em que se transformam os mais variados cantos da floresta vistos por quem têm a felicidade de nela adentrar, sentindo o esplendor da paz que ali é produzida pela natureza.
Estamos há mais de seis horas de canoa e as águas do Môa não param de descer, cada vez mais limpas e reluzentes à luz do sol a pique, “beijadas” a todo instante por bandos de andorinhas pretas e amarelas, que acompanham os barcos da região com incríveis rasantes e belas manobras aéreas, como que ensinando ao visitante o caminho da beleza que ainda nos espera rio acima.
Atração maior
Quatro horas depois de entrarmos no Môa, avistamos o Igarapé Ipiranga, por onde em uma hora de subida de barco se pode encontrar um complexo hidrográfico formado por seis grandes lagos, conforme nos relatou o barqueiro José Coelho. O um lugar pode se transformar num ponto de grande atração turística para os futuros visitantes da Serra do Divisor.
Já passavam das duas horas da tarde quando, após uma parada para o almoço, encontramos o professor Antônio Braga Conceição. Junto com sua mulher, Raimunda Nonata Maciel, ele cultiva feijão, milho e melancia nos intervalos das aulas que ele diz ministrar “com muito carinho” para os filhos e filhas de ribeirinhos das redondezas. Todo dia, Antônio acorda às 5 da manhã para dar tempo de preparar a merenda de seus alunos. “Tudo é nas mãos da gente. Tenho que dar aula e preparar a merenda dos alunos. Financeiramente não compensa muito, mas estamos pensando no futuro de nossas crianças”, disse o professor, cujos alunos, da 1ª à 4ª séries do Ensino Fundamental, recebem cadernos, livros e mochilas com a marca do Governo da Floresta, slogan usado pela atual administração pública acreana.
Nuniki e Nawa
Passamos depois pelas aldeias dos índios Nukini e Nawa, que com uma população de mais de 500 pessoas vivem quase da mesma forma que os ribeirinhos do Môa, plantando roçados de mandioca, fazendo farinha e alimentando-se de peixes e caça de animais silvestres. Distante dali, já próximo à subida da serra, a índia Varinaki Nukini, de 33 anos, três filhos, orgulha-se e se emociona em dizer que tem o maior prazer de dar aulas bilíngües para crianças índias e brancas cujas famílias vivem na área do parque.
Combate ao tráfico de drogas e animais
Algumas outras curvas do rio acima, avistamos o Rio Azul, ponto que delimita a área do Parque Nacional da Serra do Divisor. Dali para a Serra do Moa são mais quatro horas de viagem no tipo de canoa que viajávamos.
Outra parada e conhecemos o agricultor Emecildo da Conceição, 48 anos, que tecia folhas de palmeira para cobrir a casa que construía para o filho e a família recém-chegada de Cruzeiro do Sul. “A gente vai vivendo do que Deus e o rio dão. Aqui está bom para viver. É melhor aqui do que na periferia pobre de Cruzeiro”, afirmou Emecildo, agora responsável pela sobrevivência de uma família com mais de 10 pessoas.
Exército, PF e Ibama
Um pouco mais acima, ao final de curva maior do Môa, avistamos a base montada pelo Exército, onde tivemos de parar para identificação e falarmos dos motivos de nossa viagem à Serra. Ali, além do Exército, operam também a Polícia Federal e o Ibama, quando há casos envolvendo tráfico de drogas ou animais.
Relatos feitos à equipe por alguns ribeirinhos, que não quiseram se identificar, dão conta de que a presença constante do Exército e da Polícia Federal, que param e investigam todos os barcos subindo ou descendo o rio, reduziu de maneira significativa o tráfico de drogas, principalmente cocaína procedente do Peru. O tráfico encontrava no Môa um das principais via de escoamento para o Brasil, pela cidade de Cruzeiro do Sul.
Anoitecia quando pedimos pousada na casa de dona Lucileide Silva de Souza, 48 anos. Ela vive só com o filho de 14 anos depois que o esposo meteu-se com o tráfico de cocaína originária do Peru e lá foi preso pela PF, há dois anos, indo parar na cadeia de Cruzeiro do Sul, onde cumpre pena. Mesmo não passando necessidade, porque possui algumas cabeças de gado e criação de porco, galinha, bode, plantios de mandioca, banana, laranja e limão, dona Lucileide manifestou interesse em sair do parque. Ela já não se sente segura em morar ali.
Carta de Lucileide
Segundo Lucileide, além de pressões de traficantes peruanos e da polícia, que ainda faz revistas periódicas em sua propriedade, ela também enfrenta a incerteza de ser indenizada ou mantida no parque depois que o Ibama resolver investir na região. Na volta da Serra do Divisor, nos entregou uma carta, dirigida “aos caros amigos da imprensa”, em que ela relata seu drama familiar, pede para sair do parque e recomenda que cópia da correspondência seja encaminhada ao presidente Lula.
Macacos e pássaros
Após um banho rejuvenescedor nas águas geladas do Môa nas primeiras horas do amanhecer do dia 12 de maio, seguimos viagem rumo à Serra do Divisor.
Uma hora depois, paramos na Escola Francisco Militão de Melo, onde crianças de todas as idades: Evinaldo, 12, Elessandra,10, Joelito, 8, e Marcelino, 7, já esperavam a professora Flor chegar para iniciar a aula.
A escola funciona ao lado de um pequeno posto de saúde, onde o auxiliar de enfermagem José Silva de França faz o que pode para atender as famílias de ribeirinhos acometidas de gripe, resfriado, verminose, malária e outros doenças menos graves. Nos casos mais graves, a própria população já sabe que o doente tem de “baixar” para se tratar em Mâncio Lima ou Cruzeiro.
No final da manhã, depois de passar por alguns bandos de macacos pulando em árvores próximas ao rio e encontrar pássaros coloridos como o tamadião e bandos de andorinhas pescando e se banhando nas águas do Môa, chegamos finalmente aonde os ribeirinhos chamam de Pé da Serra. Ali, fomos diretos para a casa de Argemiro Magalhães, o Miro, um misto de pequeno agricultor e extrativista que nasceu na área do parque e há algum tempo é encarregado pelo Ibama de cuidar da casa que serve de sede do parque, situada a cinco minutos dali e só habitada quando aparece, vez ou outra, uma missão do órgão na região.
Indecisão
Casado, 35 anos, três filhos, Miro mora no Pé da Serra há mais de 16 anos e, a exemplo das 520 famílias cadastradas pelo Ibama como moradoras na área do parque, vive desde 16 de junho de 1989, data de sua criação, o grande drama de não saber o que vai acontecer com ele e a família. “Em todos esses anos, o Ibama não decidiu nada. Não disse quem vai ficar ou quem vai sair. Não disse também se vai ou não indenizar as benfeitorias das famílias”, queixou-se Miro, demonstrando toda a humildade que o fez, certamente, ter por 15 anos tanta paciência e resignação para esperar pacificamente por uma solução para o seu drama.
Muita diversidade e grande passivo social
Para continuar na área do parque, o agricultor e extrativista Miro Magalhães teve, no entanto, mais sorte do que outros milhares de famílias que, nos últimos 15 anos, não puderam expandir suas atividades agrícolas, caçar ou pescar para complementar a renda familiar e decidiram abandonar suas casas e benfeitorias localizadas no parque, sendo obrigadas a se alojar nas periferias pobres de Cruzeiro, de Mâncio Lima e de outras cidades da região.
É o caso de Francisco Xavier Barbosa de Lima, conhecido por Xiquininim, que vive hoje na periferia de Cruzeiro, sustentando a família vendendo salgados na praça da cidade, depois de ter investido, por três décadas seguidas, numa propriedade de 496 hectares titulada pelo Incra. Em sua área, o produtor chegou a plantar 200 hectares de seringueiras, 20 hectares de café e muitos roçados de mandioca, milho, arroz e feijão. Xiquininim foi proprietário de 296 cabeças de gado e de grandes criações de porcos, galinhas, que tornavam a vida muito farta na região.
Fartura acabou
“Hoje, está tudo lá abandonado, destruído, roubado. Acabou-se aquela vida farta que todas as famílias tinham na região”, disse, revoltado, Xiquininim, quando da passagem da equipe pela cidade de Cruzeiro do Sul. Ele informou que a Fundação Nacional de Saúde (Funasa) cadastrou 7,5 mil famílias que, segundo ele, viviam “com fartura e tranqüilidade” na região da Serra do Môa antes da chegada do Ibama, em 1989.
As sete mil famílias obrigadas a sair da área do parque, segundo recorda ainda Xiquininim, é que fizeram a pobreza e a miséria presentes na periferia de Cruzeiro do Sul. “Os filhos e as crianças da Serra do Môa se perderam na prostituição e no tráfico de drogas na periferia da cidade”, lamentou, com olhos marejados, o outrora próspero agricultor.
Ele criou há pouco tempo a Associação de Seringais, Terras e Benfeitorias do Parque Nacional da Serra do Divisor, entidade civil pela qual ele e outras famílias pretendem lutar no Ibama e na Justiça, para que todos os danos econômicos e sociais que lhes foram causados sejam reparados pelo governo federal.
Vagaroso
Indagado sobre o passivo social do Parque Nacional, o superintendente do Ibama no Acre, Anselmo Forneck, não só o admitiu como “triste realidade”, como atribuiu a culpa de tudo ao fato de o estado brasileiro ser “lento, vagaroso e burocratizado”.
Tendo assumido o Ibama no estado em 2003, Forneck garantiu que o órgão, contando até com instituições internacionais, vai procurar fazer “tudo que for possível” para compensar o passivo social da região, indenizando as propriedades que sejam documentadas, pagando as benfeitorias, conseguindo terras para assentar as famílias que desejarem sair do local e definindo as famílias que serão aproveitadas para trabalhar como funcionários no parque após a sua abertura ao público.
Visão divina
A nossa viagem prosseguiu no mesmo dia rumo à Serra do Divisor, onde pudemos, em duas horas de barco, passar por dentro de uma das mais belas e monumentais obras que a natureza criou na selva amazônica: o grande cânion de floresta que o Rio Môa esculpiu, ao longo de séculos, exatamente no meio da Serra do Divisor, uma das mais altas ondulações de floresta que se pode encontrar no local antes das grandes subidas da Cordilheira dos Andes, em território peruano.
Ali, qualquer um se sente pequeno diante das dimensões das paredes de rochas acima das quais se erguem duas montanhas cobertas de árvores que, no ponto central do cânion, chegam a medir até 300 metros de altura. É uma visão inigualável de uma obra da natureza que geólogos calculam ter no mínimo 100 milhões de anos. No ponto central do grande cânion da Serra do Môa, a emoção, de fato, atordoa a todos que têm a certeza de ser aquela uma visão divina.
Arara azul
Ao longo da Serra, que se pode percorrer em uma hora de barco a motor, as águas do rio Môa se tornam mais escuras e espremidas por grandes pedras, que formam locais muito estreitos, como o que os nativos chamam de Apertado da Hora, onde o rio se transforma numa média corredeira, bem apropriada para competições de caiaques e barcos menores.
Alguns minutos depois passamos pelas cachoeiras Pirapora e Central, separadas por belas praias que começam a aparecer no verão à medida que o rio vai secando. No meio do cânion, também se pode chegar até a cachoeira do Ar-Condicionado, cuja queda d’água, de quase 10 metros de altura, deixa o lugar sempre com temperaturas muito agradáveis.
Com o motor da canoa desligado no meio do cânion da floresta, o visitante pode também ouvir uma sinfonia de cantos dos mais variados pássaros da região, como o curió, currupião, patativa, bem-te-vi, sabiá, periquito, papagaio e arara, inclusive a azul.
A terra da biodiversidade prossegue na subida do Môa até a Cachoeira Pedernal, que naquela época do ano se transforma num complexo de diminutas cachoeiras que passam ao lado das grandes pedras existentes no meio do rio.
Na Serra do Môa, ao final da tarde e principalmente à noite, é também possível ouvir ruídos e gritos de macacos, antas, porcos-do-mato, capivaras, queixadas, veados, pacas, cotias, tatus, iraras, gatos-maracajás, quatipurus e até onças, que se misturam a aves como mutuas, kujubins, pacus, jabuaçus, nambus-galinhas, jacamins e gaviões.
Abelhas sem ferrão
Segundo o Ibama, levantamentos preliminares indicam a existência, na Serra do Môa, de pelo menos 1.233 espécies de animais — só de macacos há 14 espécies — e 485 espécies de aves. Dessas, 15 são migrantes do Hemisfério Norte e oito do Hemisfério Sul, seis são consideradas raras, três se constituem em novas espécies e quatro se encontram ameaçadas de extinção.
Ali são encontradas, ainda, 64 espécies de abelhas sem ferrão e 34 espécies de abelhas polinizadoras de orquídeas, destacando-se o gênero Aglae, extremamente raras. Tudo isso já levaram os cientistas a constatar que toda a área do Parque Nacional da Serra do Divisor se constitui, de fato, numa das regiões de maior biodiversidade da Terra. Biodiversidade situada tanto no alto quanto embaixo da grande e majestosa planície amazônica, que é vista do Ponto do Mirante, o mais alto da Serra do Divisor, conforme narramos no início desta reportagem, realizada em três dias e em mais de 25 horas de viagem de canoa a motor.
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